Por que os “pequenos grupos” falharam?

editorial

Ao pesquisar as igrejas evangélicas, no contexto de Pequenos Grupos, não pude deixar de observar que estas falam acertadamente que o propósito do encontro é a edificação do corpo de Cristo, ou seja, a edificação da igreja, cujos grupos são as células deste corpo.

Os discursos das igrejas, em geral, são muito bons, teologicamente corretos, ou, pelo menos afinados com seu sistema de crenças.  Mas transformar discurso em prática é como transformar energia em trabalho – é necessário um sistema de transmissão eficiente e um objetivo operacional definido. O outro lado, o que vai receber a energia, precisa estar pronto, caso contrário, a chegada da energia vai causar transtorno, podendo, inclusive, levar a destruição do sistema.

O poder da energia, que é invisível, transforma-se em trabalho, que é visível. Mas se essa transmissão não acontecer, o poder da energia não causará nenhum efeito, e não produzirá nenhum resultado. E se acontecer de forma equivocada, defeituosa, o prejuízo é certo, e poderá ser grande e irrecuperável.

Agora vamos tentar unir as partes: em primeiro lugar, como parece evidente, nosso discurso motivacional para implementarmos os Pequenos Grupos foi correto, afinado com o sistema, baseado na Revelação, tinha tudo para dar certo. Essa era a energia que pretendia movimentá-los. Este movimento era o trabalho, mas o trabalho, como neste caso, avalia-se pelo seu produto, ou resultado. E aí vem a segunda consideração. Quando se percebeu que os resultados logo apareceram, encheram os olhos de seus protagonistas e patrocinadores. E o resultado era crescimento – algo que faz vibrar todo um sistema eclesial – crescimento. Porém, na sequência, o que se observou foi o seguinte: se em alguns lugares, a criança cresceu e a roupa ficou curta, em outros, preparou-se uma roupa grande esperando a criança crescer e a criança não cresceu. Aí a colheita foi desencanto, frustração e renúncia e, em alguns casos, oposição.

O que aconteceu? Em alguns lugares, poucos, pelo visto, os Pequenos Grupos cumpriram seu propósito, qual seja, o de oportunizar um crescimento saudável às igrejas que o praticaram corretamente; em outros, a liderança ou não os entendeu, ou não se entendeu, e o crescimento prometido não aconteceu. Para estas igrejas e, possivelmente, para suas lideranças, concluíram que os Pequenos Grupos não servem.

Qual poderá ter sido o problema? Evidências apontam para o sistema de transmissão que transforma energia em trabalho. Ou seja, os mecanismos responsáveis por fazer os Pequenos Grupos acontecerem, levando as igrejas que os praticaram ao crescimento saudável, ao desenvolvimento sustentável, e à felicidade de seus membros, não funcionaram. Então, em muitos lugares o equívoco ofereceu uma conclusão parcial e seguramente falsa: os Pequenos Grupos falharam. Mas o que falhou mesmo, ou apenas, foi o sistema de transmissão. Os Pequenos Grupos mesmos, não foram sequer compreendidos; logo, também não o foram praticados verdadeiramente, ou se praticados, o fizeram defeituosamente.

É preciso gritar até ficar claro para toda a igreja que a falha foi no sistema de transmissão, não nos Pequenos Grupos. E é este sistema que precisa ser reavaliado, revisto, reconsiderado, ou substituído em parte, ou mesmo no todo. Essa reavaliação precisa partir dos pontos concordes, dos pontos em que se sabem, os Pequenos Grupos foram inspirados e fundamentados, e corretamente motivados, e que, quando assim praticados, ofereceram resultados extraordinários que alegraram a irmandade e fizeram a igreja experimentar resultados que lembraram a igreja primitiva, quando esta vivia em comunhão entre si e com o Espírito Santo, e o povo testemunhava de que haviam estado com Jesus.  Estas evidências não podem ser esquecidas, ou suplantadas por dificuldades de compreensão, aprendizado, falta de critério, ou qualquer outro motivo gerado por razões menores ou pessoais.

Ficou evidente em muitas igrejas que praticaram os Pequenos Grupos de forma bíblica, apostólica e saudável, que estes são o plano de Deus para este tempo. As igrejas que assim o fizeram, alcançaram resultados evangelísticos expressivos e jamais vistos, o índice de apostasia que é alarmante foi resolvido, o amor fraternal foi recuperado, o poder do Espírito Santo nas reuniões e cultos foi percebido; a igreja passou a experimentar uma felicidade comunitária que não conhecia. São evidências de uma igreja viva que todos desejamos, e que não podemos esquecer nem negar. Isto aconteceu, de fato, em vários lugares.

Sendo isto assim, as dificuldades já eram esperadas, pois o inimigo das almas não se conforma em ver a igreja feliz, atuante, poderosa.

Estou convencido pela Palavra e pelo testemunho das igrejas que praticaram os Pequenos Grupos de forma saudável de que é possível recuperá-los a começar por se fazer entender que esta é uma prática bíblica, apostólica, profética e escatológica. Este é o modelo no qual Jesus Cristo encontrará a Sua igreja. A igreja que aguardará Jesus não será uma igreja reclusa e cativa das catedrais, dos grandes templos que mais parecem shopping centers, feitos para agradar seus patrocinadores pós-modernos.

Podemos partir do ponto em que sabemos estar certo, porque baseados em princípios encontrados na Revelação. Podemos partir do ponto em que concordamos, em que estamos unidos, em que as evidências demonstram que esta é uma prática saudável e necessária para a igreja que viverá antes da volta de Cristo. A energia propulsora dos Pequenos Grupos continua e continuará impelente, saudável, poderosa, e disponível; o efetivo operacional dos Pequenos Grupos – os membros da igreja – continua pronto, disponível, esperançoso, aguardando tão somente a chegada da energia propulsora que finalmente acionará novamente os sonhos da irmandade e da liderança comprometida com o Reino de Deus.

Umberto Moura

Postado em:
Sobre o autor

Umberto Moura

avatar

Umberto Moura, principal autor e editor deste site, é doutor em teologia, na área de Pequenos Grupos, cuja tese, “Pequenos Grupos: Uma Fundamentação Bíblica, Teológica e Histórica”, foi defendida em novembro de 2009.

6 comentários

  1. Olá, gostaria de saber se existe mais artigos a respeito de pequenos grupos, onde posso ler sua tese e se vc tem algumas bibliografias para me indicar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *