voltar

página inicial

Solidariedade

“Assim como eu vos amei, amai-vos uns aos outros”. Jesus Cristo (João, 14: 34).

A sociedade tem se tornado extremamente individualista. O medo do futuro tem alimentado o egoísmo e afetado drasticamente a falta de consideração, de respeito e de solidariedade. Com o crescimento demográfico, o indivíduo submergiu na massa; deixou de ser conhecido pelo nome para ser contado por um número. Números não têm sentimento, não têm coração.

Se alguém tropeça no meio da rua, até que alguém telefone e chegue uma ambulância, ele já foi atropelado pelos que vinham apressadamente atrás. Como ninguém se conhece, dão-se ao direito de fazer qualquer coisa escondidos no meio da multidão. Se ninguém se conhece, pode-se esbravejar no volante de um carro, pode-se ignorar uma velhinha que pede ajuda, pode-se pegar alguma coisa de alguém indevidamente, pode-se falar palavras grosseiras, e tudo segue como se fora normal.

Dor, violência, sofrimento tudo faz parte do espetáculo chamado vida pósmoderna. Combatido, desprezado e solitário o homem vai se transformando, como diria Herman Hesse, num “lobo das estepes”. O comportamento individualista que opera, a princípio, como um instinto de defesa, transforma-se numa arma social potencialmente perigosa, porque cogita em fazer de cada ser humano desconhecido um rival, ou mesmo um inimigo.

A concorrência por um emprego, a busca por um lugar na universidade, a disputa por um cargo melhor coloca uns contra os outros sem o menor cinismo. Somos muitos, somos desconhecidos, somos concorrentes, somos inimigos. Esse é o pensamento que perpassa a mente da massa. Cada um por si e se possível, vamos acabar com os concorrentes.

Precisamos de uma revolução social silenciosa que resgate o espírito de cooperação e solidariedade. Precisamos uns dos outros mesmo que a maioria o queira negar. Se não despertarmos essa consciência, logo cada um será estranho dentro de sua própria casa. O ser humano foi criado para viver em comunidade fraterna, com sentimentos fraternos, com amor uns pelos outros.

Quando o reverendo Martin Luther King tornou popular uma das frases mais conhecidas no mundo – Ninguém é uma ilha - na verdade ele estava parafraseando o poeta inglês do século XVII, John Donne, que sete dias antes de sua morte escreveu:

“Nenhum homem é uma ilha, inteira em si mesma; toda pessoa é parte do continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor, da mesma forma que se o mar levasse todo um promontório, ou uma propriedade tua ou de teus amigos. A morte de qualquer pessoa me diminui, porque faço parte da humanidade. Portanto, não mandes saber por quem o sino dobra [quem morreu]; ele dobra por ti” (citado por Charles Swindoll, em Vivendo Sem Máscaras, 50).

Tudo de bom ou de ruim que acontece no mundo, de uma forma ou de outra, vai afetar a minha vida. Alguém que se suicida no Japão, uma criança que morre de fome na África, ou um animal que é vítima de queimada na Amazônia, cada um desses fatos me afeta como ser humano. Somos habitantes de um mesmo planeta, dividimos uma mesma Terra, moramos no mesmo mundo. O que afeta um, afeta outro.

Solidariedade não é um sindicato, ou uma ONG, mas um princípio, um sentimento que precisa ser resgatado como elemento importante e indispensável da identidade humana. Sem esse princípio os seres humanos não alcançam seu status de filhos de Deus.



Umberto Moura

topo