Mensagem de saúde

A ideia de que o homem é um ser dividido em duas partes – corpo e alma – tem suas raízes no dualismo radical grego que não conseguia conciliar a alma (ou espírito) considerada boa, e a matéria (ou corpo) que era má. Esse pensamento filosófico facilitou a penetração de algumas heresias no cristianismo, inclusive a tão generalizada “imortalidade da alma.” Essa “doutrina” pretende sustentar o equívoco de que o homem é um corpo habitado por uma entidade etérea, abstrata, chamada alma (ou espírito), que vive no corpo, mas que dele se separa por ocasião da morte; sendo essa alma, portanto, imortal.

No livro de Gênesis, contudo, encontramos uma esclarecedora informação concernente à origem e natureza do homem, que se contrapõe inteiramente à ideia da existência da alma como uma entidade viva, autoconsciente e independente do corpo.

“Então formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente.” Gênesis 2:7.

Encontramos nesse texto que: pó da terra + fôlego de vida = alma vivente. O homem é uma alma vivente e como tal, poderá morrer; como de fato, morre mesmo. Portanto, a alma que é o homem, é mortal e não imortal. E a Bíblia diz claramente que “a alma… morrerá.” Ezequiel 18:20.

Formado da terra, recebendo de Deus a centelha da vida, feito à imagem de Deus com a capacidade de amar, pensar e escolher, torna-se óbvio verificar que o homem original era muito mais que uma linda escultura divina; era um ser completo e perfeito, com uma dimensão física, mental e espiritual.

Se o homem é um ser de natureza única e indivisível, a sua salvação não é apenas uma questão de ordem espiritual, sem qualquer relação com a sua dimensão física. Salvar a alma sem qualquer preocupação com a integridade física – o corpo – definitivamente esta não é uma doutrina que possa ser encontrada na Bíblia. Ao contrário, o apóstolo Paulo ensina enfaticamente a salvação integral do homem, nas suas três dimensões:

“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis os vossos corpos (dimensão física)  por sacrifício vivo,  santo e agradável a Deus, que é o vosso culto (dimensão espiritual) racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos  pela renovação da vossa mente (dimensão intelectual).” Romanos 12:1, 2.

1. Uma doutrina bíblica

Deus está interessado em nossa salvação. Deus está interessado em nosso corpo. Portanto, Deus está interessado em nossa saúde. É o que podemos compreender dos textos a seguir:

“Porque Deus amou ao mundo  de tal maneira  que deu o Seu único Filho, para que todo Aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” João 3:16.

“Esse mesmo que  ressuscitou a Cristo Jesus dentre  os mortos, vivificará também os vossos corpos mortais por meio do Seu Espírito que em vós habita.” Romanos 8:11.

“O coração alegre é bom remédio, mas o espírito abatido  faz secar os ossos.” Provérbios 17:22

(negritos acrescentados)

Enganam-se aqueles que pensam não se encontrar na Bíblia uma doutrina sobre saúde. Existem na Bíblia várias dezenas de textos que se referem diretamente a este tema. O Senhor Deus não está preocupado apenas com a nossa condição espiritual. Ele sabe muito bem que, se alguém estiver doente no corpo, tanto sua mente quanto seu espírito também serão afetados. Mais do que isso, a doença afeta a nossa vida em todos os sentidos, não só no aspecto físico, mental e espiritual, mas também nos aspectos social e econômico.

Podemos deduzir estes conceitos das palavras do apóstolo João, endereçadas ao seu amigo Gaio:

“Amado, acima de tudo faço votos por tua prosperidade e saúde, assim como é próspera a tua alma.” 3 João 2.

Nesta saudação que João faz ao presbítero Gaio, podemos destacar três aspectos:

  • saúde do corpo;
  • saúde da alma (integral: mente, corpo e espírito);
  • prosperidade nas realizações seculares, ou prosperidade nos empreendimentos sociais e econômicos.

É razoável esperar que estas características sejam encontradas na vida do cristão. O povo adventista, mais que qualquer outro, deve refletir no corpo, na mente e no caráter a imagem de Deus. O povo remanescente, com sua missão peculiar de preparar o mundo para a volta de Cristo, tem o privilégio e a responsabilidade de chamar a atenção do mundo pelo testemunho de sua própria vida, glorificando a Deus inclusive no corpo.

“Vi outro anjo voando pelo meio do céu, tendo um evangelho eterno para pregar… dizendo em alta voz: Temei a Deus e dai-Lhe glória, pois é chegada a hora do Seu juízo.” Apocalipse 14:6, 7 (negrito acrescentado).

Como portadores do “evangelho eterno”, não podemos nos eximir ao dever de proclamarmos a última mensagem a um mundo condenado, de forma coerente. Ou vivemos a mensagem, ou não preguemos a mensagem. Pregá-la sem viver, é desqualificar-se como testemunha, é comprometer a verdade. Entretanto, conhecê-la sem vivê-la é suicídio.

O mundo não deseja saber apenas o que dizemos, mas, principalmente, deseja ver como vivemos. Afinal, somos anunciadores da breve volta de Jesus, somos pregadores da tríplice mensagem angélica; por- tanto, tudo em nós tem a ver com nossa fé. Tudo o que dissermos, ou deixarmos de dizer; tudo o que fizermos, ou deixarmos de fazer afetará a qualidade do nosso testemunho.

“Portanto quer comais, quer bebais, ou façais outra  coisa qual- quer, fazei tudo para a glória de Deus.” 1 Coríntios 10:31 (negrito acrescentado)

O apóstolo Paulo nos ajuda a perceber que reforma de saúde é parte integrante da tríplice mensagem angélica; e que dar glória a Deus também diz respeito ao nosso corpo e aos cuidados que lhe dispensamos.

“Acaso não sabeis que vosso corpo é santuário  do Espírito Santo que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? […] Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo.” 1 Coríntios 6: 19,20 (negrito acrescentado).

Cuidar do corpo, agora, não é mais uma simples questão de saúde ou estética, mas um dever cristão, pelo menos para aqueles que almejam a salvação.

“Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque o santuário de Deus que sois vós, é sagrado.” 1 Coríntios 3:17.

PARA REFLETIR
Você acha que a prática da mensagem de saúde, como parte da tríplice mensagem angélica, é importante para seu desenvolvimento espiritual?

2. Uma doutrina tipicamente adventista

Neste capítulo, estamos apresentando o pensamento oficial da Igreja Adventista do Sétimo Dia em relação à Mensagem de Saúde. Devemos admitir que, em alguns aspectos, como igreja, temos ficado distante do ideal que Deus traçou para o Seu povo; outras vezes, temos falhado de forma lamentável. Contudo, se este povo nada mais tivesse a melhorar, já estaria no Céu; e esta é precisamente a nossa meta.

“Os Adventistas do Sétimo Dia (ASD) crêem que o cristão deve preocupar-se com a saúde, não em virtude de qualquer significado cerimonial ou legalista, mas pela simples razão prática de que é apenas por meio de um organismo sadio que eles podem oferecer o mais eficiente serviço a Deus e aos outros. A razão de enfatizar princípios de saúde é a própria saúde. A saúde relaciona-se com a religião no sentido de permitir que o homem tenha a mente mais clara e assim compreenda melhor a vontade de Deus.

“Os Adventistas do Sétimo Dia crêem que por ocasião da queda do homem todos os três aspectos de sua natureza – física, intelectual e espiritual – foram afetados; e que Jesus, que afirmou ter vindo para restaurar o que se havia perdido (Lucas 19:10) tem em vista salvar o homem como um todo. Em seu ministério Jesus ensinou esses três aspectos; Ele pregou  o evangelho do reino (espiritual), curou todos aqueles que estavam mentalmente afetados (intelectual) e restaurou aqueles que eram afligidos por enfermidades (físico).

“Sobre estas bases bíblicas repousa a crença de que existe perante Deus uma responsabilidade pela preservação da saúde, e que a pessoa que viola voluntariamente estes simples princípios da saúde, ocasionando consequentemente sobre si própria a enfermidade ou mesmo a incapacidade, está vivendo em violação às leis de Deus. O fumante que acarreta sobre si mesmo o câncer do pulmão; o alcoólatra que desenvolve cirrose de fígado; aquele que se alimenta irregularmente ou em excesso, ou aquele que condescende com quantidades excessivas de alimentos pesados e ricos e assim desenvolve problemas digestivos; o profissional ou comerciante corpulento, pesado, que não pratica exercício e é acometido de um ataque cardíaco repentino – todos estão em maior ou menor grau assumindo a responsabilidade pelas doenças de que padecem e levam sobre si a culpa de haverem negligenciado o organismo que lhes foi confiado. Todos estes aspectos fazem com que nossa relação com a questão da saúde seja de ordem altamente prática, e não algo emocional ou legalístico. Se, de acordo com o que crêem os ASD, os cristãos têm a responsabilidade pela preservação do seu corpo no mesmo grau em que têm a de preservar o seu caráter, então a promoção mais ampla dos princípios de saúde assume um papel muito importante na religião e na teologia.

“É à luz destes fatos que os ASD se ocupam do cuidado dos enfer- mos, contribuindo para levar alívio aos que sofrem. Adicionalmente eles se empenham em promover, através da educação, hábitos desejáveis e práticas de saúde através dos quais as enfermidades são reduzidas ou prevenidas, e o corpo é preservado saudável.” – Seventh Day Adventist Encyclopedia, 574-576.

PARA REFLETIR
Você acha que a aceitação da mensagem de saúde depende de como está sendo apresentada ou isso seria apenas uma desculpa?

3. O uso dos testemunhos na mensagem de saúde

Apesar da considerável orientação sobre saúde encontrada na Bíblia, foi mesmo através do Espírito de Profecia que o Senhor apresentou à Sua Igreja uma reforma de saúde, de maneira elaborada, sistemática e consistente.

“Grande luz tem sido dada sobre a reforma pró-saúde, mas é essencial que todos tratem deste assunto com candura e o defendam com sabedoria. Em nossa experiência temos visto muitos que não apresentam a reforma pró-saúde de um modo que cause a melhor impressão sobre aqueles que eles desejam que aceitem suas opiniões. A Bíblia está repleta de sábios conselhos, e mesmo o comer e o beber recebem a devida atenção. O mais elevado privilégio que o homem pode desfrutar é ser participante da natureza divina, e a fé que nos liga em forte relação com Deus modelará e moldará a mente e a conduta de tal modo que nos tornemos um com Cristo. Ninguém deve, pelo apetite desenfreado, condescender de tal maneira com o seu paladar que debilite alguma das delicadas obras do mecanismo humano, prejudicando assim a mente ou o corpo. O homem é a propriedade adquirida pelo Senhor.

“Se formos participantes da natureza divina, viveremos em co- munhão com o nosso Criador e daremos valor a toda a obra de Deus que levou Davi a exclamar: ‘Por modo assombrosamente maravilhoso me formaste.’ Salmo 139:14. Não consideremos os órgãos do corpo como sendo nossa propriedade, como se o houvéssemos criado. Todas as faculdades que Deus concedeu ao corpo humano devem ser apreciadas. ‘Não sois de vós mesmos’, porque ‘fostes comprados por preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus.’ l Coríntios 6:19 e 20.

“Não devemos tratar insensatamente uma só faculdade da mente, alma ou corpo. Não podemos abusar de qualquer dos delicados órgãos do corpo humano sem ter de pagar a penalidade pela transgressão das leis da Natureza. A religião bíblica introduzida na vida prática assegura a mais elevada cultura do intelecto.

“A temperança  é exaltada a um alto nível na Palavra de Deus. Obedecendo a Sua Palavra podemos subir mais e mais alto. O perigo da intemperança é exposto minuciosamente. A vantagem a ser obtida pela temperança nos é revelada em toda parte nas Escrituras. A voz de Deus nos está dizendo: ‘Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.’ Mateus 5:48 […].

“A reforma pró-saúde, exposta sabiamente, demonstrará ser uma cunha de entrada onde a verdade pode seguir-se com acentuado êxito. No entanto, apresentar a reforma pró-saúde insensatamente, fazendo desse assunto o tema principal da mensagem, tem concorrido para suscitar preconceitos entre os descrentes e obstruir o caminho para a verdade, deixando a impressão de que somos extremistas. Ora o Senhor quer que sejamos sábios e compreensivos quanto ao que constitui Sua vontade. Não devemos dar motivos para sermos considerados extremistas. Isto seria uma grande desvantagem para nós e para a verdade que Deus nos incumbiu de transmitir ao povo. Pela introdução do próprio eu não consagrado, aquilo que sempre devemos apresentar como uma bênção transforma-se numa pedra de tropeço.

“Vemos os que escolhem as expressões mais fortes dos testemunhos e sem fazer exposição ou um relato das circunstâncias em que são dados os avisos e advertências, querem impô-las em todos os casos.

Assim eles produzem maléficas impressões na mente das pessoas. Há sempre os que são propensos a apossar-se de alguma coisa de tal índole que possa ser usada por eles para prender as pessoas a rigorosa e severa prova, e que inserirão elementos de seu próprio caráter nas reformas que eles poderiam ajudar se agissem cautelosamente, exercendo uma influência salutar que levaria as pessoas com eles.” – Mensagens Escolhidas 3, 283-288.

Conclusão

Parece que Satanás tem conseguido relativo sucesso contra este aspecto da obra, ao fazer com que pessoas extremistas e até mesmo desequilibradas tornem-se defensoras da reforma pró-saúde, ao passo que outros, em condições de levar avante esta obra, têm sido remissos, contribuindo para aumentar o número de indecisos; e ainda um terceiro grupo tem se posicionado como verdadeiro inimigo da reforma pró-saúde.

Encontram-se abaixo algumas orientações a respeito de como usar, ou não usar, os escritos de Ellen G. White sobre saúde (baseadas em 3ME, 283-288):

  • Apresentar a reforma de saúde sob o ponto de vista bíblico.
  • Cuidar para não ir a extremos na defesa da reforma pró-saúde, principalmente de forma abrupta.
  • Não enxertar nesta reforma ideias particulares nem convicções pessoais, transformando-as na voz de Deus.
  • Não condenar os que não vêem as coisas como nós as vemos.
  • Considerar que leva tempo para se educar pessoas em novos hábitos.

PARA REFLETIR
Já estou convencido mesmo de que a mensagem de saúde é importante para minha salvação?


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